¿Sabías qué?

 

 















 
 

 

     

 

 

 

 

 
 

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ENTREVISTA 

JOSE  SARAMAGO 

PREMIO NOBEL DE LITERATURA 1998 

   Por 

     ©Luis García 

 Cada um dos seus livros provoca expectação, já que estamos falando de um dos Prémios Nobel mais respeitados dos últimos anos. Poucas vezes um romance tinha provocado tanto interes como A Caverna. Com ele o escritor, luso de nascimento, mas canário de adoção,  fechou a sua particular trilogia iniciada com Ensaio sobre a cegueira e continuada com Todos os nomes, no que parece ser um ponto de inflexão na sua carreira.  José Saramago não é, contrariamente a opinião de alguns agoureiros que sem ter lido a sua obra criticam e rechaçam a sua poética literária, o homem hermético do que falam com certa inveja. Como ele próprio afirmou, “as vezes a literatura lembra uma operação de Bolsa. As cotizações crescem e baixam, e em muitas ocasiões isto é só o resultado  da promoção”, afirmação que parece chocar com a idéia de que a literatura é uma arma que pode ajudar a mudar o mundo. Mas como o próprio autor defende ao largo da entrevista, esta idéia somente parece chocar. É possível que José Saramago tenha visto o horror nos olhos dos indígenas que juntam-se em Acteal. Para muitos trata-se de um horror virtual, que fica muito longe da realidade. Para ele, trata-se da constatação de que a confrontação humana mora no nosso interno e não conhece fronteiras. Dificilmente pode um indígena de Chiapas perceber a dimensão alegórica da sua obra literária. Mas si existe no mundo alguém merecedor e devedor da mesma, serão sempre aqueles que acordam-se na manhã a procura de alimento, à fugir das balas dos que pretendem aniquila-los. Porque eles são os verdadeiros protagonistas de A Caverna, do Ensaio sobre a cegueira. Eles são os Ciprianos que não percebem nada das leis do mercado, e que algum dia vão pôr o ponto final na obra de um homem que não teve reparos em juntar-se ao que outros chamam “a esquerda de caviar” (que lamentável eufemismo), para assim reunir a sua voz com a dos que não podem se expressar em liberdade, simplesmente porque ninguém te lhes dado a oportunidade. Deve a Azinhaga o feito de ter sabido se dotar da necessária sensibilidade literária para que um miúdo que apenas tinha saído da aldeia legara-nos para o futuro uma das mais optimistas e arrebatadoras visões do mundo dos últimos anos. Porque José Saramago não é um homem pessimista por muito que intente-se repetir o contrário. Nas suas palavras esconde-se uma profunda convicção de que o ser humano, como já manifestou no Zócalo poucos meses atrás, levantará-se y elevará a sua voz para que esta seja refundida em uma voz única que será trasladada além dos confines da Terra.

 

 

Foto  ©Pilar del Rio 

Luis García.- Agora, transcorridos vários meses apos da edição de A Caverna, pensa que a descrição feita do Centro Comercial foi ajustada?

José Saramago.- O tempo que passou desde a publicação de A Caverna nada tem que ver com a descrição que fiz do centro comercial. Os centros comerciais que conhecemos não são ainda como aquele que descrevi no meu romance, mas a praia artificial que lá meti, por exemplo, foi copiada de um mall que visitei na cidade de Edmonton (Canadá). Cada vez mais os centros comerciais se irão confundir com os chamados parques temáticos, e não tardará muito tempo que as pessoas queiram viver dentro deles

L.G.-               O que quero dizer é que parece que não todos os leitores perceberam a imagem platoniana, se calhar por ignorância do mito da caverna do Platão. Mas, não parece um bocado exagerado nos nossos tempos de voragem informativa?. 

J.S.- Que é exagerado? Que nestes tempos de vorágine informativa as pessoas não conheçam o mito platónico da caverna? Se a pergunta é essa, a resposta poderia ser esta: que a vorágine é muito menos informativa do que parece. 

L.G.- Mas, por quê um Centro Comercial?. 

J.S.- Em tempos passados era nas grandes superfícies chamadas catedrais que a mentalidade humana desta parte do mundo se formava. Agora forma-se nessas outras grandes superfícies que são os centros comerciais... 

L.G.- Tão desalentador é o futuro como o senhor parece percebe-lo na novela? 

J.S.- Penso que sim, mas admito a possibilidade de estar equivocado. Para pior, claro está. 

L.G.- O senhor mora numa ilha, longe do mundo (é só uma maneira de falar) e fazendo o que mais gosta: escrever. Como é que o senhor vê o mundo desde a distância?. 

J.S.- Não vivo afastado. As provas disto (para não citar outras que têm que ver com as minhas intervenções como simples cidadão) chamam-se Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes, A Caverna. Não teria escrito esses romances se não tivesse algumas ideias sobre o mundo e sobre os seres humanos. 

L.G.- O senhor acha que ainda temos motivos para manter a esperança?. O terrorismo da ETA, a crise no Oriente Médio, a xenofobia, que o senhor conhece muito bem... 

J.S.- Conceitos como esperança ou utopia, interessam-me pouco. Para mim, o que conta é o trabalho que deverá ser feito no dia em que estamos. Se não o fizermos, isto é, se não procurarmos em cada momento, efectivamente, soluções para os problemas, de pouco nos servirá continuar a falar de utopias ou de esperanças, atirando para um futuro incognoscível a concretização delas. 

L.G.- Saramago, é um nome que infunde respeito tanto entre os que lhe apóiam literariamente como entre os que lhe manifestam o seu rechaço. A que devesse isto? 

J.S.- Sugiro que se pergunte a essas pessoas as razões por que me seguem ou por que me rechaçam. Creio que a conclusão seria óbvia e simples: uns estão de um lado, os outros estão do... outro. 

L.G.- Como é que foi a sua experiência mexicana?. Como viveu a manifestação na praça do Zócalo?.  

J.S.- Foi um dos momentos mais exaltantes e arrebatadores de toda a minha vida, uma das raras ocasiões em que percebemos que poderíamos ser infinitamente melhores do que o que somos.

L.G.- Achamos que o poder de atração duma figura como a do Subcomandante Marcos é enorme. De onde acha que surge o seu atrativo? 

J.S.- Nas suas ideias e na forma como as expressa. Marcos não é só uma grande inteligência, é também uma extraordinária sensibilidade. Todo o contrário dos políticos comuns e correntes. 

L.G.- Também os participantes foram alvo de críticas, Montalbán, etc. A que é que são devidas? 

J.S.- Essas críticas vieram do... outro lado. Não é necessário dizer mais. 

L.G.- Há tanto ódio, rancor, e mesmo inveja entre nos?  

J.S.- Ainda mais ódio, ainda mais rancor, ainda mais inveja do que poderá imaginar. Um ninho de víboras seria pouca coisa em comparação. 

L.G.- Vou faze-lhe uma confidência: tenho de salva-pantalha no meu ordenador do escritório, uma frase que dize: Quanto mais velho, mais livre,e quanto mais livre, mais radical. (José Saramago). Lembrei esta frase ao senhor numa outra entrevista. O que é que há de certo nela?

J.S.- Em primeiro lugar, que proferi realmente essas palavras. Em segundo lugar, porque, olhando-me, vejo em mim uma relação quase orgânica entre velhice, liberdade e radicalidade. Outros dirão que isso não é possível, que a velhice nos empurra inevitavelmente para a servidão e para o imobilismo. Sim, é certo, mas, por enquanto, a senilidade ainda não me alcançou. 

L.G.- Não é que acha que nem todos estão  preparados para entende-la, tanto a frase como a lapidaria moralidade da novela?. 

J.S.- Ninguém está preparado se não se prepara, se não é preparado. Eu também não estou preparado para perceber com exactidão suficiente o que aconteceu no Big Bang... 

L.G.- Alguns censuram-lhe que o senhor não percebe que os Centros Comercias são realmente as agoras da antiguidade. O que é que dize a isto? 

J.S.- Dá-me vontade de rir essa ideia de que os ágoras modernos são os centros comerciais. Se assim fosse, seria caso para nos perguntarmos que diabo de cultura teríamos nós herdado dos Gregos... 

L.G.- A Caverna é no fundo uma bonita história de amor... Concebeu-la com esta idéia? 

J.S.- As histórias de amor, nos meus romances, nunca são premeditadas, nascem das circunstâncias. O aparecimento de Isaura, a mulher de quem Cipriano Algor se enamora, não estava previsto. Como não estava previsto o cão Encontrado, que, como se sabe, é outra história de amor. 

L.G.- O que é que o senhor dizer-ia aos que lhe acusam de imobilista por não aceitar o progresso?. 

J.S.- É uma acusação estúpida. Imobilistas são aqueles que se encontram a gosto num planeta em que metade da população mundial vive com menos de quatrocentas pesetas por dia, e em que mil e quatrocentos milhões de seres humanos têm de viver com menos de duzentas pesetas diárias. O que eu exija ao chamado progresso é que passe a considerar o ser humano como prioridade absoluta. Tudo o que não não vá neste sentido, ou é criminoso, ou é hipócrita. 

L.G.- Tenho a impressão de que unicamente desde uma perspectiva comunista é possível de escrever A Caverna. Foram-lhe as suas convicções políticas de ajuda na hora de se sentar frente do ordenador?  

J.S.- Não pensei em convicções políticas enquanto escrevia A Caverna. Ai de mim, se o fizesse... Seria sinal de um artifício imperdoável. Escrevi com o que sou e com o que penso. Nada mais. 

L.G.- No que é que o senhor  está trabalhando atualmente? 

J.S.- Em uma obra projectada há quase dez anos e constantemente adiada. Levará o título de O Livro das Tentações. É uma autobiografia, reportada somente à infância e à adolescência do seu autor. O que fui e o que fiz na idade adulta é mais ou menos público. Espero que esse livro sirva para que eu próprio possa conhecer-me melhor. 

L.G.- O senhor levanta paixões ala por onde ir, tal se fosse uma estrela de Hollywood, junto com um componente de sedutor que surpreende com a sua verdadeira idade O senhor nota esse aproximação com os seus leitores? 

J.S.- Seria uma pessoa de todo insensível se não o reconhecesse. Creio que o afecto que os leitores me dedicam radica no facto de eles saberem ou intuírem que não estou a enganá-los, nem quando escrevo, nem quando falo. Quanto à sedução, se for certo o que me diz desse componente da minha personalidade, parece que a velhice. ao contrário do que geralmente se pensa, é capaz de tudo... 

L.G.- Lembrarei sempre (como tantos outros) o início do seu discurso quando recebeu o premio Nobel, aquela história sobre o avó do senhor.  Fica muito longe aqueles momentos? Sente nostalgia? 

J.S.- A memória dos meus avós não é memória, é presença constante, contínua, ininterrompida. Continuo a ser o neto deles. Para mim, estão vivos. E uma das grandes alegrias que me proporcionou o Nobel, foi ter-me dado a oportunidade para, perante o mundo, falar de duas pessoas que para o mundo não tinham qualquer importância. E que passaram a tê-la. 

L.G.- O senhor mantém a fé no futuro? Acha que a literatura ainda pode mudar o mundo, ou quando menos ajudar nesta tarefa? 

J.S.- Deixemo-nos de ilusões fáceis, de tópicos optimistas. A literatura pode pouquíssimo. Mudar o mundo? Nunca mudou. Ajudar a mudar? Parafraseando o ditado: "Ajuda-te, que Deus te ajudará", eu diria: "Ajuda-te, que a literatura te ajudará". Mas não são muitos os que querem ser ajudados.

 

 ©Luis García 

  Septiembre, 2001

 


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